Monte perto das estrelas

Conversando com meu irmão ele me fez uma pergunta muito interessante que ouviu num programa de rádio:

"Se você quiser ficar o mais perto possível das estrelas, em que lugar na terra você ficaria?" E, é claro, que é sem trapacear, ou seja, sem voar, sem estar em pernas de pau, etc.

Minha reação imediata foi pensar que seria no pico mais alto da Terra, naturalmente. Mas eu hesitei um pouco, pois muitas vezes quando uma pergunta é feita assim, cuja resposta parece-nos tão óbvia, nem sempre é a resposta correta.

De qualquer modo ele me perguntou, qual é a resposta mais óbvia? Ao que eu respondi "O Monte Everest". Para quem faltou a todas as aulas de geografia e nunca mais depois disso assistiu tv ou não leu mais nada :), o Everest é o ponto mais alto da Terra, daí a resposta mais óbvia ser essa. O Everest conta oficialmente com a altura de 8848m acima do nível do mar. Ele localiza-se na borda entre o Nepal e a China.

Mas, como vocês perceberam acima, a altura dele é contada acima do nível do mar e não a partir do centro da Terra. Façamos um exercício de imaginação:

Imaginemos uma bola, uma esfera perfeita, como essa mostrada ao lado. Se nos imaginarmos colando uma pilha de sete moedas e uma outra pilha de dez moedas em locais diferentes da sua superfície, o topo da pilha de dez moedas vai estar mais afastada do centro da bola do que a pilha de sete moedas. Isso é bastante fácil de perceber.

Entretanto, e se a bola não for bem esférica? Se ela for, por exemplo, como uma bexiga, qual das duas pilhas de moedas estará mais afastada do centro da bexiga? A resposta vai ser, naturalmente, "depende de onde a gente colar cada uma das pilhas de moedas".

É exatamente isso que acontece com o nosso Planeta Terra. Quando olhamos para a Terra, por ela ter a aparência de ser bem redondinha, na verdade ela não é completa e perfeitamente esférica. A Terra é, como costumamos falar da cabeça dos nordestinos - e eu sou um deles - um pouco achatada nos pólos e isso faz com que na linha do Equador, a terra é mais distante do centro do planeta.

Assim, do mesmo modo que na bexiga, se tivermos um monte ou uma montanha, mesmo menor em tamanho, mas que esteja próximo da linha do equador, esse monte certamente estará mais alto em relação ao centro da Terra que o monte Everest. E esse monte existe e tem nome.

Monte Chimborazo, vista sudeste

Monte Chimborazo é como ele se chama. E se localiza no Equador, o país. Com "apenas" 6267m (outros falam que seria 6310m), mas por estar localizado bem próximo da linha do equador, o seu pico está mais distante do centro da Terra que o Monte Everest. E não é por poucos metros que ele ganha essa "competição". Mesmo sendo ~2600m mais baixo que o Everest, o Chimborazo é "mais alto" que o seu competidor em mais de 2100 metros!

A primeira tentativa de subir o pico mais alto do mundo (no século 19 o Chimborazo era considerado o mais alto do mundo) foi tentada e quase alcançado pelos alemães Alexander von Humboldt e Aime Bonpland e um equatoriano de nome Carlos Montúfar. Eles não conseguiram ir até o topo, alcançando apenas 5875m, mas sua expedição ficou marcada na história e abaixo vemos uma pintura dessa tentativa.

Alexander von Humboldt e Aime Bonpland aos pés do Chimborazo

Naturalmente que em termos de grandeza visível aos olhos nus (cuidado para não deixar os olhos gripados, pois na altura desses montes, o frio e o gelo são quase que eternos) o Everest é bem mais imponente e maior, além de ser bem mais famoso. Entretanto, caso reflitamos um pouco podemos chegar a alguns pensamentos interessantes sobre a relação desses dois Montes.
  1. Dizem que "quem vê cara não vê coração". Isso parece que é verdade até mesmo para as montanhas. Vemos a grandeza do Everest, mas, escondidinho, quietinho, o Chimborazo é quem nos leva mesmo mais perto das estrelas;
  2. Lembro-me também de Davi e Golias, a lenda bíblica. Os pequenos, mas destemidos e perseverantes, sempre alcançam o que desejam, afinal de contas...;
  3. "Tamanho não é documento", como também diz o adágio popular. Que o possam confirmar os baixinhos e, em especial, as baixinhas (aqui caberiam algumas citações honrosas a várias amigas minhas, mas não vou citar nomes pois elas podem se sentir tocadas e depois eu é que acabo sofrendo :D).
Assim, tiramos, como sempre, mais uma lição da Natureza. Nem sempre o aparenta é o que achamos que é. Muitas vezes, aquele que aparentemente está nos levando para mais alto não está nos levando para mais perto das estrelas. Desse modo, se é para as estrelas que nós estamos querendo ir, é muito melhor escalar o Monte Chimborazo que o Everest.

Um grande e esférico, meio achatado na cabeça, beijo em todos.

Comentários

Robson Luciano disse…
Caríssimo Mack, esse post caiu como uma luva em meu atual momento de vida.É interessante notar como Deus nos fala através de anjos (como você). É lamentável como outras pessoas não lêem seus escritos e não caem em si! Feliz Páscoa! Um forte beijo em ti e nos novos rebentos de sua família!
Anônimo disse…
Olá. Mack!
Gostei muito principalmente da passagem referente as baixinhas.
Já sabe o que pode acontecer, caso faça algum comentário.
Beijooo

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