Duas Flores

Faz um bom tempo que não apareço por aqui. Tanta coisa acontecendo e eu acabei deixando O Pensações um pouco de lado. Felizmente eu não deixei as pensações de lado. E hoje, depois de muito lutar comigo mesmo para recomeçar a escrever por aqui, encontrei algo que me inspirou a compartilhar minhas pensações com todos. Perdoem-me se o post for ficar muito extenso, mas creio que será o meu modo de pedir desculpas pela ausência tão prolongada...

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Faz um tempo que fiz algumas considerações aqui no Pensações acerca de duas gêmeas siamesas e hoje vi uma notícia sobre outras duas e deu-me vontade de falar novamente sobre o assunto.

Elas nasceram em 1990. Mais especificamente dia 07 de março de 1990, ou seja, daqui a alguns dias elas estarão completando 17 anos. As irmãs Abigail e Brittany Hensel vieram à Terra na cidade de Carver County no estado de Minnesota nos Estados Unidos. São, em terminologia médica, gêmeas siamesas dicéfalas, ou seja, duas irmãs que nasceram unidas por alguma parte do corpo e que têm duas cabeças e, por conseqüência, dois cérebros.

Elas são duas meninas normais, não fosse... Espera aí... O que é ser normal? Quando falamos que uma coisa é normal, ao que estamos nos referindo?

É interessante pensarmos sobre isso pois muito do que consideramos normal quando abrimos a boca pra falar "isso é normal" não passa de nossa impressão acerca do mundo ou, o que é ainda pior, nossa parca visão do nosso mundinho pequenininho. Tão pequenininho certas vezes que tem gente que nem assiste nem lê jornal e ainda assim sabe, ou acha que sabe, o que se passa no mundo e tem opinião sobre tudo. E não vá querer discutir com ela, pois ela vai bater o pé e dizer que já ouviu falar e que fulano de tal disse que viu no jornal... Mas...

Voltemos à nossa reflexão. O que é ser normal? Normal é definido como algo que acontece com muita freqüência e que pode ser considerado como regra, como norma geral no que estamos querendo comparar. Ficando isso estabelecido, a próxima pergunta seria: então, quem foi que ditou a norma? Será que existe apenas uma norma? Quando "normalizamos" uma coisa, temos o cuidado suficiente para deixarmos claro que aqueles que não estão "dentro da norma", ou seja, aqueles que não são normais não estão errados e em devem ser excluídos por causa do simples fato de não fazerem parte da norma?

No caso dessas duas meninas, como elas são duas pessoas distintas, mas que estão ligadas através de um só corpo, compartilhando alguns órgãos e alguns membros, ligadas pelo tronco, quando abrimos a boca pra falarmos que elas não são normais, do que estamos falando? Todos vão dizer que é do corpo, naturalmente. Mas será que quando falamos que elas "não são normais", apesar de serem diferentes no corpo elas não são normais na mente? E será que, apesar de sabermos que elas são duas pessoas comuns intimamente, as pessoas que olham para elas ou que sabem da história delas, realmente a enxergam como "normais"?

A reflexão sobre a "normalidade" das coisas é bem mais profunda do que simplesmente uma discussão acerca da vida dessas duas flores. Meninas/flores que compartilham o mesmo caule, mas que têm suas tonalidades diferentes, cada uma com sua personalidade, como sua individualidade. Apenas estão unidas pelo laço corporal mais do que estamos acostumados a ver por aí.

Apesar de vivermos na realidade, será que realmente os nossos padrões de normalidade são baseados no que realmente é norma, ou estamos vivendo uma realidade alterada pelo que vemos nos meios de comunicação, seja ela impressa, televisiva ou falada? Vejam o vídeo abaixo antes de continuarem a ler:



Depois de assistir a esse vídeo, será que o que temos visto é normal ou o que temos visto é o que os outros querem que a gente ache normal? Será que esse tipo de manipulação não nos faz ficarmos mais preconceituosos com a não normalidade?

Nessa foto, Abigail e Brittany estão com 16 anos e continuam crescendo normalmente e fazendo atividades normais que qualquer menina americana de 16 anos faz. Jogam softball (uma espécie de jogo de beisebol), comem sanduíches, brigam, discutem, gostam de estilos de roupas e comidas diferentes e têm que entrar em acordo para ver o que vão vestir e comer... Ou seja, duas meninas normais, que têm apenas uma diferença em relação a nós: precisam ser menos egoístas, já que precisam compartilhar tudo, até mesmo os mesmos órgãos, os mesmos braços, as mesmas pernas...

Num mundo que todos queremos construir para nós mesmos, sempre imaginamos que não haverá nem egoísmo e nem orgulho. Naturalmente ainda estamos longe de chegarmos lá. E talvez esse seja o principal motivo que nos leva a achar que essas duas meninas não são normais. Como elas são menos egoístas que nós, nós as achamos diferentes e as rotulamos de "não normais" ou pior, de "anormais". Mas eu pergunto, será mesmo que são elas que são as anormais?

Tento sempre me tornar menos egoísta, mas naturalmente ainda estou longe de chegar num estágio que realmente gostaria de estar. Entretanto continuo trabalhando sempre para isso. E, quando encontro histórias assim que me fazem refletir e pensar acerca de vida, da minha vida e do sentido da vida, me sinto ainda mais disposto a continuar melhorar, dia após dia, minuto após minuto.

Espero que o pedacinho da história de Abigail e Brittany possa também despertar em você uma chama de mudança, de atitude positiva diante da vida. E que essa chame nos acorde para a realidade e para que possamos cada vez mais percebermos o que realmente é normal do que não é tão normal, como querem que vejamos.

Para finalizar, gostaria de deixar um poema que encontrei e que fala de duas flores. Linda melodia para os olhos e para os ouvidos da alma, nas palavras de Castro Alves, um dos maiores poetas da língua portuguesa de todos os tempos.

A DUAS FLORES

São duas flores unidas,
São duas rosas nascidas
Talvez no mesmo arrebol,
Vivendo no mesmo galho,
Da mesma gota de orvalho,
Do mesmo raio de sol.

Unidas, bem como as penas
Das duas asas pequenas
De um passarinho do céu...
Como um casal de rolinhas,
Como a tribo de andorinhas
Da tarde no frouxo véu.

Unidas, bem como os prantos,
Que em parelha descem tantos
Das profundezas do olhar...
Como o suspiro e o desgosto,
Como as covinhas do rosto,
Como as estrelas do mar.

Unidas... Ai quem pudera
Numa eterna primavera
Viver, qual vive esta flor.
Juntar as rosas da vida
Na rama verde e florida,
Na verde rama do amor!

Que o amor dessas duas flores, dessas duas meninas nos provoque a repensar a vida, nos aqueça o coração e, enfim, promova em nós a agir adequadamente no bem.

Dois beijos anormalmente grandes e amorosos em todos.


Comentários

Anônimo disse…
Mack!
É um belo exemplo de amor e companherismo a história destas duas meninas, e que este amor possa se espalhar entre todos nós. E com seu exemplo, pensarmos o que realmente tem valor em nossa vida.
beijos...
Aniña
Lucila disse…
Obrigada pela reflexão!!
Posso usar a estrutura num comentário no LEAN? espero que sim!
Beijos
Robson Luciano disse…
Caríssimo Mack, concordo com todos os seus pensamentos. Mas, também, é de ciência de todos que todos nós, inclusive elas, podemos achar isso ou aquilo anormal, segundo nossas convicções. Porém, reafirmo: concordo com você a respeito do tema. E acho extremamente válido para a construção de um mudo melhor suas pensações. Ah, uma pequena observação curiosa: como será o casamento delas? Um grande abraço.
Cau Logrado disse…
Puxa, quanta sensibilidade...
Lindo!

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